02/06/2010 – Quarta-Feira 12:48 PM
Tive uma manhã horrível no trabalho. A falta de sono e os pesadelos estão me incomodando cada dia mais, as olheiras e a falta de cuidado comigo mesmo estão começando a ficar perceptíveis e acho que estão notando isso no trabalho. Assim que cheguei em casa, pude ouvir passos na cozinha. Fui correndo ver quem era e pude ver a mulher dos meus sonhos: ela usava as roupas que trajava no sonho da segunda-feira quando afogou o menino na banheira, porém tinha um avental todo branco. Ela dava passos curtos pela cozinha e tinha um sorriso lindo no rosto. Aliás, ela é linda. Tem uma pele aparentemente macia e branca e mãos delicadas que seguram um prato cheio de comida que ela deixa sobre a mesa. Eu tento ignorar a cena e vou para o meu quarto pensando que estou cada dia mais louco. Apesar de tentar ignorar, reparo que os olhos dela são olhos de uma mulher feliz e gentil. Eu senti amor e ternura, mas não consigo entender como ela possa ser a mesma mulher dos meus sonhos.
Depois desses acontecimentos, eu decidi sair de minha casa. Como se já não bastassem as duas semanas e pouco de sonhos malucos, agora eu começo a ver essa mulher em plena luz do dia?! Acho melhor eu sair deste lugar o quanto antes. Hoje a tarde não vou trabalhar, vou arrumar minhas coisas e sair daqui, ficar em um hotel ou outro lugar qualquer enquanto procuro uma nova casa.
02/06/2010 – Quarta-Feira 12:48 PM
Não consegui sair de casa. Após ter escrito no diário, eu rapidamente comecei a fazer as minhas malas, e no processo, eu escutei um choro. Tive que parar e ir checar o que era. Caminhava lentamente pela casa com o coração batendo acelerado; cada passo que eu dava eu podia escutar o choro ficando mais e mais alto. Não podia ser nenhum vizinho, a casa ficava constantemente trancada e eu não poderia escutar as outras casas também. Com o coração na mão continuei caminhando. Eu escutava o choro vindo do quarto onde, em meus sonhos, o menino havia sido esfaqueado. Eu coloquei a mão na maçaneta da porta, que desde aquele dia eu deixei a porta fechada.
Abri a porta lentamente. Meus olhos estavam abertos de pura curiosidade, pois dentro de mim eu sabia que não queria ver seja lá o que estivesse ali. Deixei minha mão escapar da maçaneta e minha boca se abrir pelo espanto. Ele estava sentado na cama, ensangüentado, vermelho. Ele, as paredes, os lençóis, tudo era vermelho. Eu entrei no quarto, me ajoelhei sobre a cama e fui engatinhando até ele e coloquei a mão em seu ombro, fazendo com que ele me olhasse no fundo de meus olhos. Eu senti vontade de chorar, mas não consegui, ele já chorava por mim.
Quando percebi que isso tudo era mais real do que eu queria que fosse, simplesmente pulei da cama, me virei de costas para aquela insanidade e corri pela casa, passei pela cozinha e vi-a de novo, entrei na garagem e corri direto para meu carro. Nem pensei em entrar nele. Minha surpresa foi quando tentei abrir a porta da garagem: ela não abria. Não importa, se eu tentasse com as chaves, sem chaves, ou até mesmo arrombar, não importa, eu estou preso aqui dentro.